Fernando Miguel Martins
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Quando Joana acordou em sobressalto, procurando exasperadamente pelos seus óculos, esquecendo-se por completo de onde os havia posto, sentiu que algo não estava bem. A névoa que sempre lhe cobrira os olhos adensara-se e, por muito que ela tentasse, não estava a conseguir ver como no dia anterior. Abriu e fechou os olhos, num movimento rápido, na esperança de que, na vez seguinte, se dissipasse aquela cortina.

Continuava sem saber dos óculos. Deambulou ébria pelo quarto, tropeçando aqui e ali. O espaço que conhecia de olhos fechados era-lhe estranho naquele momento, a ansiedade tomava conta do seu peito e a respiração era tão veloz que conseguia ouvir cada batida do seu coração.

Precisava de se acalmar, calma… calma… toda a sua vida fora passada de médico em médico, em busca de respostas. O que lhe faltava de visão sobrava-lhe em perceção e intuição.  Mas havia algo de diferente desta vez.

O seu corpo começou a tremer. Aquilo por que sempre receara toda a vida acabara de acontecer: estava cega. CEGA!  E agora?

Muitas imagens e palavras passavam pela sua cabeça. Era o “A sua visão está a piorar de dia para dia” do médico; era o “Vamos filha, não há-de ser nada. Deus vai ajudar-te. Confia.” da mãe; era o “A bengala é um instrumento essencial para quem não vê. Pega-se desta forma.” do técnico de orientação e mobilidade; era o “Tu és forte. Nada te vai abalar.” dos amigos. Era tudo e mais alguma coisa e não era nada.

Mas, o que sabiam eles?

Quem eram eles para sequer imaginar o que ela estava a sentir?

Começou a formar-se um grito tão grande dentro de si, de tamanho tal, que nem um murmúrio lhe saiu.

Joana sentia que a sua vida acabara ali, naquele quarto, sozinha. No fundo ela sabia que este dia acabaria por chegar, mas a esperança de que, um tratamento inovador, uma nova descoberta ou um milagre tecnológico, pudessem descobrir um tratamento para os seus olhos,  permitiam que se mantivesse confiante. Essa ideia acompanhou-a desde sempre, desde que se lembra de pensar.

Toda a sua luta, as dezenas de consultas e tratamentos, as injeções dolorosas, tudo, pareciam cair por terra naquele momento.

Aquele embate (des)esperado com a realidade veio revelar que Joana não era aquela pessoa forte que todos pensavam conhecer. No fundo, naquele momento, sentia-se fraca, mal conseguia respirar e o seu corpo teimava em não se manter de pé. Perdera todas as suas forças.

A custo saiu da cama no dia seguinte, abriu todas as portas e janelas e o som da natureza entrou avidamente pela casa toda. Fez-lhe bem. O sol nascera outra vez e os raio que incidiam na sua cara ruborizaram-na e aquele calor confortou-a de uma maneira que não sabe explicar.

Aquele seria o último pôr do sol que iria ver no resto da sua vida...
Queria esquecer tudo o que se tinha passado no dia anterior. Num piscar de olhos a sua vida mudara e uma pergunta assombrava-lhe a cabeça, como uma insónia incessante: E agora?

As respostas chegavam-lhe de todos os lados, mas Joana não acreditava numa única delas. Era demasiado perspicaz para perceber que tudo o que ouvia não passava de frases feitas de circunstância, piedade fútil, estereótipos, promessas de cura, incompreensões, maldades e incertezas.

A resposta só podia estar num único lugar, num sítio que só ela podia encontrar, sem mapa, sem chaves nem ‘abre-te sésamos’. Começou a imaginá-lo, um local lindo, muito verde, junto ao mar, com caminhos estreitos e árvores que escondem segredos, onde os carros não passam e as pegadas na terra são difíceis de encontrar. Esse caminho levava Joana ao local onde tinha visto o pôr do sol pela última vez. Era a sua última memória visual. Lembrava-se também de sentir o calor na sua face e a pele a ficar mais fresca à mesma velocidade que o sol adormecia na linha do horizonte. Deixou-se ficar nesse pensamento, talvez uns minutos, talvez uma eternidade.

As respostas às suas perguntas haviam de estar por ali, naquele lugar dentro de si, nos seus pensamentos, na sua força, na sua vontade de fazer aquilo que parecia impossível até ser feito. Ela nunca deixou de procurar os seus óculos.

São assim os grandes Homens. É assim a Joana.

A história da Joana não é real, mas não podia ser mais verdadeira.

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Fernando Miguel Martins é natural de Torres Vedras, nasceu no dia 29 de setembro de 1974. Licenciado em Ensino de Inglês e Alemão pela Universidade de Aveiro, começou a dar um novo rumo à sua vida profissional há cerca de 10 anos começando o seu trabalho no apoio a crianças e jovens com deficiência visual. Frequentou ações de formação neste âmbito, nomeadamente na grafia braille e na orientação e mobilidade; fez um curso de Educação Especial (visão) na Escola Superior de Educação de Setúbal; foi monitor da colónia de férias para utentes do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos e alunos da Direção Regional de Educação de Lisboa. Em 2011 tirou uma pós-graduação em Educação Especial (domínio visual) no Instituto Piaget de Almada, onde, como projeto final, idealizou o Gabinete de Apoio à Deficiência Visual do concelho de Torres Vedras (GADV) que, apresentado à Câmara Municipal de Torres Vedras, tem estado em atividade desde então, prestando apoio a cerca de 30 utentes. Atualmente é professor de Educação Especial, no domínio visual, do Agrupamento de Escolas Padre Vítor Melícias e participa ativamente nas atividades do GADV, sendo o responsável pela área da Orientação e Mobilidade. No seu ‘Num piscar d' olhos…’ propõe-nos uma viagem pelo mundo, nem sempre compreendido, da deficiência visual, onde serão abordados temas como o estigma, a mobilidade, o sentimento e o luto, a sobrevivência, o mundo do trabalho, os relacionamentos, a perda de visão e os problemas visuais.

9 COMENTÁRIOS

    • Obrigado. É um assunto muito emotivo. A perda de visão traz muita dor e revolta. Há que fazer o ‘luto’ e depois ir à luta e reaprender a viver. Felizmente conheço alguns casos de sucesso e, sempre que posso, tento ajudar.

  1. Conheço a Joana, chama-se Leonel.
    E nem sei o que lhe diga para o confortar, contudo nego-me de ouvir lamentar. Isso é duro, mas só cortando os justos lamentos se pode ter força .
    É um novo vi-ver, que passa mais por sentir.

  2. Esta história é em muita coisa semelhante à da Bruna.
    Sem nada que nos fizesse prever a Bruna acordou uma manhã sem ver , tinha na altura 4 anos.
    Não sei se ela sentiu o mesmo que a rapariga desta história pois ela era muito melhor pequenina ….
    Mas sei que o meu mundo e do meu marido desabaram e levamos muito tempo para nos erguer .
    Ainda hoje é difícil, mas a Bruna é uma força da natureza e um orgulho para nós !
    Passamos todos a ver o mundo com outros olhos!!!
    Nada é impossível , basta acreditarmos !!

    • A Bruna é um orgulho para os pais e também para os seus professores. É tudo devido à sua grande força interior e aos excelentes pais que tem.
      A Joana da história é a Bruna, o João, a Ana, o Leonel, o Carlos, o Diogo, o André, a Cristina…e muitos outros.
      Com os textos que vou publicando espero despertar um pouco mais as pessoas para estas questões, nunca me referindo aos meus alunos nem aos utentes do Gabinete de Apoio à Deficiência Visual e meus amigos, porque cada caso é único e merece toda a discrição. A ‘minha’ Joana é um pouco de cada um deles.
      Ana, as suas palavras são um estímulo para todos os pais e eu sei que não são só palavras (de circunstância) pois os seus atos falam por si. Continue assim.

  3. Muito orgulho no meu coleguinha de carteira na escola! Um percurso brilhante e uma intervenção social de louvar. Parabéns Fernando!

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