Artigo de Opinião: É bom viver em Torres Vedras?
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Artigo de Opinião de João Pedro Canário, 18 anos, estudante de Ciência Política e Relações Internacionais.

Comemoramos 40 anos de cidade. Em 1979, seguramente que a cidade de Torres Vedras como a conhecemos hoje não era a mesma. Portugal a nível geral entrava numa era de fomento económico, cultural, urbanístico, rodoviário e industrial. No entanto, ainda bastante embrionário com um pós 25 de abril ainda muito precoce. A nossa cidade ao longo de quatro décadas sofreu mudanças inolvidáveis que qualquer torreense que se preze, concorde ou não com a liderança socialista tem de lhe reconhecer o mérito em algumas das suas obras. O legado socialista é extenso, sendo que também é extensa a lista de erros a apontar às sucessivas lideranças do PS no nosso concelho. São 40 anos de constantes sucessões dinásticas, marcadas pela renuncia do presidente em funções, sucedendo sempre ao lugar o vice-presidente, evitando-se assim eleições no imediato e visando sobretudo que a oposição nunca venha a tomar as rédeas do poder. A última foi o caso do Dr. Carlos Miguel, que em 2015 renunciou ao cargo para integrar o cargo de Secretário de Estado das Autarquias Locais – pelouro habitual quando um presidente de câmara torreense ascende a um alto cargo da nação – e sucedeu-lhe o Dr. Carlos Bernardes.

Façamos uma retrospetiva interessante. Corria o ano de 2001 e surge em contexto de eleições autárquicas um candidato por todos desconhecido, o Engenheiro Pistachini, candidato pelo PSD. Consegue a proeza de alcançar 41,47% dos votos e o PS, com o Dr. Jacinto Leandro (ou Malandro), cerca de 41,68%, por 0,21% o PSD não ganhou na nossa autarquia. Dúbio. Questionável. No mínimo, averiguável. O poder local socialista sentia os seus primeiros abalos. Contudo, após tudo isto, em 2004, com recém-chegada liderança do Dr. Carlos Miguel, o PS local começou a consolidar-se e celebrizou-se pelo seu carisma, capacidade de governança e espirito inovador. A partir de 2013 dá o grande trambolhão e em finais de 2015, já com o Dr. Carlos Bernardes na liderança, as medidas tomadas no concelho vinham muito a reboque do tempo do anterior presidente, mas em 2016 surge uma medida pouco mediatizada e altamente curiosa para os demais: a requalificação das ruas do Turcifal. Precisamente a localidade onde o então presidente reside. Pura coincidência, pensemos assim.

Em 2017, nas autárquicas alcança uma maioria absoluta mesmo “res-vés campo de Ourique” – 51,06% – muito aquém das anteriores, em parte abalada pelas suspeitas de plágio na sua tese de doutoramento e do polémico ajuste direto na principal junta da freguesia da cidade a um secretário integrante dessa mesma infraestrutura pela módica quantia de 600 mil euros – inúmeros foram os contratos celebrados entre a junta de freguesia com as empresas fictícias do visado. Quem não se lembra do
“Sócrates do Varatojo”? Ou melhor ainda, quem se lembra do “irmão metralha” (presidente) da junta de freguesia de A-dos-Cunhados? Esse mesmo em que está a pensar, que possui uma lavandaria self-service conjuntamente com o irmão, em que os mesmos efetuaram uma ligação direta da rede pública de distribuição de eletricidade à sua lavandaria, consumindo assim energia sem que fosse registada em equipamento de contagem de energia, lesando a EDP num valor superior a 78 mil
euros.

Estes são apenas alguns salpicos deste grande lamaçal que é a gestão da Câmara
Municipal de Torres. Tão bem sabemos que as polémicas já são apanágio desta infraestrutura. Comecemos por tirar do baralho prémios de mobilidade e de cariz ambiental, é que o dia da árvore ficou marcado pelo decorrer da retirada dos inúmeros freixos integrantes da Rua Leal D´Ascensão para a implementação da nova rede de ciclovias da cidade. Outra das grandes chalaças deste mandato é o enaltecimento da futura reestruturação da rede viária. A publicidade é sempre eximia, a execução é que por norma fica para aquele dia tão conhecido, o de “São nunca à tarde” ou então para ano de eleições, mesmo em cima da campanha eleitoral. Por essas e por outras é que nesta vertente somos peritos na arte de remendar. Siga-se o exemplo de Mafra. Para sermos bons em algo temos de nos inspirar nos melhores. Quem pretenda ir até Santa Cruz, Alenquer, ou mesmo o Forte de São Vicente depara-se com um rede viária oitocentista, digna de lá circularem carroças. Tão bem sabemos que a famosa tese de doutoramento do então presidente é sobre as “Linhas de Torres”, por isso mesmo é que se tem tentado manter intacta esta zona tal e qual como se tivéssemos em tempo de invasões napoleónicas. O Festival Novas Invasões que aí se avizinha agradece.

Para adensar este livro de reclamações, vejamos o recente legado de betão por este concelho fora que já é impressionante. Esta é outra das grandes bandeiras desta liderança socialista. Vejamos:

  1. Requalificação da praia Formosa, em Santa Cruz – com o famoso muro da
    vergonha como muitos intitulam;
  2. CAC – Centro de Artes e da Criatividade com obra a decorrer (antigo matadouro) –
    em que o projeto mais horrendo foi o vencedor, quando o nome do arquiteto se
    sobrepõe à beleza do edifício em si, o resultado é o que está à vista (suspeito que
    quem concebeu o projeto desconhece por completo o que são janelas);
  3. A futura BMTV – Biblioteca Municipal, para já apenas com projeto aprovado (junto
    à Igreja de Santiago) – representa mais um atentado ao bom gosto, desafia quem
    vê o projeto a tentar ver o lado bom da coisa, mas é tarefa impossível (não existe
    qualquer relação com o espaço envolvente). Faz mesmo lembrar o neo-brutalismo
    pós-2ªguerra mundial em que as construções apenas eram feitas com recurso ao
    betão, sem quaisquer ornamentos para se poupar na conceção da infraestrutura.
    Todavia, em termos de poupança nada se verifica, esta câmara tem um toque de
    midas, tudo o que toca fica ao preço do ouro.

Enfim… Muita cautela, é o que se aconselha, por norma quem se excede neste tipo de critica, mais tarde ou mais cedo, sofre represálias, nesta pequena cidade todos vivem amedrontados. Em 2017, o insider “arauto torreense” que expôs na sua página Facebook as grandes lacunas da atual gestão camarária, escondia-se por detrás de uma página fictícia para conseguir revelar a verdade pura e dura que assola há décadas os meandros deste meio. Ao ponto a que chegamos.

Recentemente, durante um reunião da assembleia municipal um dos deputados proferiu: “os valores de Abril em Torres Vedras não são plenos”. Infelizmente, com uma dose excessiva de razão. Tudo isto enfureceu o presidente (rezingão) dessa mesma assembleia. A verdade por vezes enfurece. Por isso mesmo é que o PS por norma corta sempre a palavra à oposição. Mais politicas de transparência geram aderência. O copo está cheio, mesmo prestes a transbordar e quando isso acontecer já sabem que não será em vocês que irão votar.

Se bem se lembra, caro leitor aquando a campanha eleitoral do partido no poder,
Torres Vedras foi inundada com outdoors a publicitar: “É bom viver em Torres Vedras!”. Será assim tão bom ou estaremos todos alheados da realidade?

João Pedro Canário

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2 COMENTÁRIOS

  1. Assino por baixo, exceto talvez na questão do plágio porque isso é um assunto que compete ao tribunal e por isso não vale a pena linchar o homem quando o tribunal ainda nem o começou a julgar. Além do mais, não diz diretamente respeito ao mandato autárquico. Saúdo-lhe a coragem, caro João Pedro Canário.

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