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*O espaço Autárquicas 2017 é da inteira responsabilidade dos seus autores. O TorresVedrasWeb disponibiliza os seus meios para informação à população do Concelho de Torres Vedras

Salomé Abreu
Candidata do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal / Mandatária para Juventude
Poeta

A produção cultural e a cidade adormecida (por dentro)

Vivemos tempos de grande agitação cultural. Eventos de grande escala, festivais, internacionalização. Vida cultural não falta. Não podemos sequer pensar que “não acontece nada em Torres Vedras”. A programação cultural enche a agenda.
Mas está cheia de quê? Quem escolheu estes festivais? Os eventos? Estas perguntas devem ser colocadas e analisadas para compreendermos que estas escolhas são fruto de uma monocultura de programação. Isto representa a ausência de portas abertas (nem janelas, talvez só possamos espreitar pelo buraco da fechadura) para a apresentação de projectos de artistas e agentes da cultura locais. Neste momento está a terminar o ciclo de programação do verão 2017 e era importante reflectir sobre o impacto social dos eventos que foram programados e escolhidos.

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George A. Romero (1968). Night Of The Living Dead

O estado das políticas culturais locais pode ser visto como um processo em constante decadência, sem grande capacidade de respirar fundo e de encontrar um eixo de equilibrio. Era suposto, segundo o que está previsto no nº 2 do Art 43º da Constituição da República Portuguesa: «O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.», não haver intervenção por parte de elementos da autarquia (como o Presidente da Câmara) nesta selecção e promoção cultural e artistica.

Para além desta acumulação de poderes, que impede muitas vezes a participação da comunidade criadora de cultura local de participar e se envolver nas dinâmicas da cidade onde habita, há uma barreira, que é difícil transpor, e que se prende com todas as burocracias de resistência que aparecem no caminho dos criadores e dinamizadores. A capacidade da comunidade local conseguir desenvolver os seus projectos, colectiva ou individualmente, é muito reduzida. A cultura é para todos, como refere o artigo 78º da Constituição da República Portuguesa, e a sua fruição também, e cabe ao Estado apoiar esse florescimento de projectos.

Referindo a questão local e, principalmente, referente aos jovens torrienses, que vêm as suas ideias completamente inferiorizadas por todos os motivos referidos acima, mas também porque não existem mecanismos para apoio a este processo.

Há muitas sugestões a serem apresentadas, algumas já apresentadas e dadas a conhecer à autarquia, como por exemplo, a utilização de edifícios devolutos para a criação de espaços para ateliêrs de trabalho ou dinamização de actividades culturais/ comunitárias/ sociais/ artísticas. Os recursos técnicos são fundamentais, a par com os espaços. Para ultrapassar as barreiras burocráticas é fundamental existir um apoio acompanhado na redação de projectos e para onde se podem e devem direccionar, para serem financiados e colocados ao serviço da comunidade, como por exemplo um Gabinete de Apoio a Projectos Culturais.

Este apoio poderia abranger inúmeras vertentes, como gestão de base de dados de recursos técnicos e espaços, incubadora de projectos, apoio na redação e implementação, criação de rede de artistas locais e, também muito importante, desenvolver dinâmicas com os alunos das escolas secundárias, desenvolvendo a sua capacidade proativa de apresentação de ideias e desenvolvimento das mesmas. Todas estas sugestões são promotoras da cultura local, desenvolvem socialmente as interligações entre gerações, podem gerar emprego e dinamizar a economia artistica e cultural.

O que pretendemos para Torres Vedras, e para todos os municipios, é uma nova Democracia Cultural e não uma arcaica Democratização da Cultura. Ou seja, queremos que sejam respeitados os cidadãos na sua vontade e necessidade de expressão cultural e artística, na sua capacidade de criação de eventos e dinâmicas, na sua intervenção no espaço público e na partilha com a comunidade.

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Smacky Bean, Zombie City

Esta dinâmica intercultural é necessária, desejada e tem que ser priveligiada e apoiada.

A autarquia local não pode ficar escondida atrás da política-espetáculo – colonização mental através da imagem – que parece justificar todos os eventos que acontecem, sem sabermos bem quais os requisitos para a sua concretização e qual o real impacto na comunidade e as suas funções sociais (para além das recreativas). É possível criar eventos e dinâmicas culturais e artísticas com integração da comunidade local sem, de forma alguma, prejudicar (pelo contrário, privilegia) a agenda cultural torriense.

O importante é ter uma agenda cultural preenchida? Essa parte é facilmente concretizável. Será, então, mais importante e, diria, essencial, a agregação das forças criadoras locais para reestruturar o conceito e paradgima do que é ’Cultura’, da forma como podemos intervir na comunidade e nas questões sociais que podem ser acompanhadas através da integração dos cidadãos?

Nesta curta reflexão, que pode abrir mais espaço para uma mudança transversal e profunda, gostaria de deixar este possível diálogo em aberto, para podermos encontrar respostas que se adequam à necessidade da nossa comunidade torriense.

Esta é a verdadeira luta, tornar audíveis as vozes dos que fazem a cidade viver e que querem viver a cidade.

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