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Vivemos na era do streaming, num novo espaço de imersão mediática em que o tempo real de transmissão da informação pode ser reconfigurado a nosso bel- prazer. Experienciamos uma nova era de gravações automáticas e de opiniões imediatas, que em muito vieram alterar as formas de fazer jornalismo, ampliando o auditório, que se tornou virtualmente global. Hoje, os fluxos de comunicação atingiram uma velocidade tão vertiginosa como incomensurável. O principal efeito que este novo contexto veio gerar foi a forma como nos relacionamos com a informação e, também, com os objetos, nomeadamente com os objetos artísticos ou os produtos culturais. Tudo se tornou insuficientemente imaterial, pelo menos assim o parece.

 Mapa da Internet em 2015 (fonte: The Opte Project /  www.opte.org )
Mapa da Internet em 2015 (fonte: The Opte Project / www.opte.org )

Recordo-me, faz alguns anos, do ficheiro de mp3 me ser apresentado pelo meu irmão mais novo. Confesso que a ausência de um suporte material para a música me pareceu algo estranho – até lá convivera muito bem com cassetes, cd’s e vinis – e esta coisa que não tinha qualquer forma física, mas apenas presença digital suscitou-me muita curiosidade. Anos depois, já na faculdade, tive o primeiro contacto com os livros digitais e com o papel eletrónico. Inovações que prenunciavam a morte dos livros físicos e anunciavam o fim de uma certa forma de relação com determinados suportes de comunicação, mas muito haveria a dizer sobre esta questão…

Como não há bela sem senão, o ambiente digital também proporcionou uma outra forma de consumir os objetos artísticos. Tudo se tornou demasiado descartável e produzido a pensar num consumo globalizado e efémero. Também, novas formas de pirataria foram ganhando contornos preocupantes para a indústria, nomeadamente para as grandes editoras. A própria era do streaming por subscrição é já uma resposta a essa lógica de combate à pirataria. As perdas financeiras da indústria discográfica e videográfica foram tremendamente avultadas e tornou-se necessário criar novos modos de distribuir alguns bens de consumo cultural.

Capa de Hail to the Thief por Stanley Donwood
Capa de Hail to the Thief por Stanley Donwood

Os grandes prejudicados acabaram por ser os próprios artistas que tiveram de dar asas à imaginação e criar novas estratégias para a distribuição dos seus produtos. É neste ponto que gostava de falar de uma banda, decerto conhecida pela maioria de vós, que tem sido especialista no seu processo de adaptação a este novo espaço mediático, criando uma dinâmica de marketing muito própria, que foi capaz de siderar a indústria e os seus pares. Falamos obviamente dos Radiohead, uma banda consciente do seu contexto, que escreve música que está muito à frente deste tempo.

Em 2007, para surpresa do mundo inteiro, lançaram o seu sétimo álbum, “In Rainbows”, quase sem pré-aviso, inicialmente em formato digital num download em que cada pessoa definia quanto desejava pagar pelo álbum. Apesar dos muitos downloads efetuados gratuitamente, houve bastantes utilizadores que pagaram esse download. Uns dias mais tarde deu-se a distribuição física do disco, numa edição especial que continha dois cd’s e dois lp’s. Esta edição marca o fim da relação da banda com a editora EMI e o início de uma nova fase em que os Radiohead ganharam a sua independência face à indústria, tirando o melhor partido da sua presença na internet e de todas as tecnologias da informação, subvertendo, sempre que possível a “ordem natural” das coisas.

Imagem da app dos Radiohead  PolyFauna
Imagem da app dos Radiohead PolyFauna

Em 2011, o oitavo álbum, “The King of Limbs” é lançado uma vez mais sem alguém estar à espera, trabalhando a sua máquina de marketing apenas com cerca de quatro dias de antecedência face ao novo lançamento. Novamente, após uns dias, o disco conta com uma edição física especial. De design cuidado e muito material de bónus, os lançamentos da banda, alguns em edições limitadas, revolucionam a tradicional lógica do mero disco como suporte, passando as suas edições a funcionar como verdadeiros objetos artísticos. Estas estratégias souberam tornar o produto mais apelativo ao consumo e, de certa forma, compensar os fiéis habituais compradores, que na realidade são milhões de pessoas.

No momento em que escrevo estas linhas, os fãs de Radiohead anseiam o lançamento do seu novo álbum. Se calhar quando este artigo for publicado o primeiro single, “Burn The Witch”, já estará acessível ao público, mas para já, ficamos em suspenso aguardando novidades acerca do novo disco. O que já é um caso paradigmático nas redes sociais é a forma como a máquina de marketing começou a trabalhar o lançamento deste disco. Nos últimos dias, todas as contas de redes sociais, bem como o site da banda ficaram em branco, operacionais, mas sem conteúdos, o que evidencia desde logo um paradoxo face a este tempo em que vivemos.

Quererá a banda fazer uma declaração pública, apagando o seu vestígio da WEB e desaparecendo completamente, com uma clara alusão ao tema “How To Disappear Completely”, do álbum Kid A? O certo é que este apagão dos Radiohead foi de pouca dura e, neste momento, para gáudio dos muitos fãs a banda encontra-se a lançar alguns teasers na internet, que se parecem relacionar com o pouco que têm vindo a desvendar do seu mais recente disco. Estamos cá para ver… e, independentemente do suporte e de tudo o mais, o que é preciso é que se continue a ouvir boa música. Os Radiohead, nesse departamento, são exímios.

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