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Prometi continuar o relato da noite de ontem…”ele pára a rapaqueca no peito, dribla um adversário, aproxima-se o central, sai uma revienga, prepara-se para entrar na área, olha para a baliza, tira as medidas ao guarda redes adversário e dispara para a baliza escancarada…” sai uma imperial para toda a equipa…olho para o lado…e estou completamente sozinho…abandonado…a minha equipa foi jogar para outros campeonatos e deixaram-me no nacional de seniores…mas vou lutar pelos objectivos traçados…

Já entrei em dezenas de bares. alguns que nunca a porta aberta vi, já me cruzei com centenas de abelhas maias, militares, ratos mickeys e patos donald, cabeleiras em fatos de domingo e até casais que só vieram para beber café…já vi “frangas à solta”, rédeas curtas e “pererés”, matrafonas aos molhos, outras máscaras que não sei o que é, sei que estamos em Torres Vedras e de um Carnaval como este ninguém arreda pé!

Está uma noite fantástica com um céu estrelado e uma temperatura amena, nem dou pelas horas passar…vagueio por entre os corpos que estremecem ao som do último hit…”0 sangue de jesus tem poder” e fujo a sete pés para a rua do zé gil e da cooperativa que é só malta calma que abana o esqueleto ao som de caetano, alcione, zeca pagodinho e até da turma do balão mágico…

Feitas as contas o relógio marca seis e picos, o Túnel deve estar “ao barrote” e não tenho livre trânsito…vou tentar entrar despercebido no meio da multidão…entro num autocarro da barraqueiro (até já dominam o circuito turístico Torres Vedras – Vale de Janelas) e lá vamos nós a caminho da história e memórias de quatro décadas de disco night!

Lá dentro transpira-se Carnaval. Por entre o lusco fusco, strobs, fumos e serpentinas, brilham as lantejoulas e as purpurinas, ouvem-se os ritmos do axé, do sertanejo e dos blocos de samba, e das paredes escorrem histórias de muitos carnavais. Os foliões que aqui estão a esta hora já só pensam em chegar “vivos” ao corso de logo à tarde…o dia nasce e a fila para entrar chega quase ao intermarché…entre os que vão a pé, os 125 taxis, e o autocarro estamos quase na presença de um engarrafamento na ponte 25 abril em dia de sol na caparica…não é bem assim mas podia ser!!!

O dia há muito que já nasceu e está um sol brutal, ideal para uma caminhada de domingo de manhã, do Túnel até à praça, para uma refeição tradicional. Meto-me ao caminho com mais 6 mascarados que é a primeira vez que estão em Torres e que nunca provaram uma sandes de cozido, andei a fazer publicidade a manhã toda para não vir sozinho e para dar a saborear uma iguaria cá do burgo! Perguntam-me meia dúzia de vezes se falta muito ao que respondo sempre e como bons modos…é já ali…confesso que em mil novecentos e troca o passo até a mim me parecia bem mais perto…malditos quarenta…(quilos a mais que tenho agora)

Depois de duas sandes, uma loura gira a querer saltar do copo de plástico e um café, está na hora do corso diurno…confesso que não sabia onde me ia meter, há 20 anos que não tinha uma aventura destas!!!

Avenida 5 de Outubro, três da tarde…estamos ao rubro…das colunas ecoam sons quentes e ritmos desenfreados que se misturam no meu corpo e me fazem balançar para cá e para lá, sem estética mas com muito estilo, enfrentando o alcatrão à minha frente como um ciclista que tem pela frente os Pirinéus…cerro os dentes, levanto-me do selim, ouço o público a chamar por mim, olho para a direita e vejo a meta…um toldo beje com umas letras vermelhas que diz “Caravela”…cheguei…não fui o primeiro mas o prémio é igual para todos…um CUP…(para os que não sabem o que é procurem neste Carnaval)…na Avenida 5 de Outubro como leram só “pedalei” uns 50 metros…

Há 4 horas pela frente com várias passagens pela casa de partida portanto siga a marcha no carnavalódromo!

Ganhamos posição atrás de um “cavalinho” (grupo musical apeado) que toca todo o reportório de marchinhas brasileiras e dali não saímos porque este ritmo é avassalador. São miúdos agarrados aos bombos às gaitas e às pandeiretas que já devem estar fartos de nos ouvir a cantar mal atrás deles…a malta sabe as letras mas só a parte do refrão, no resto faz la la la, le le le, e às vezes berra…”Eu quero ouvir um grito só de mulheres”…e ninguém nos liga nenhuma…pudera é só matrafonas à nossa volta!

Ao longe começamos a ouvir “O Canto da Cidade sou Eu…o canto dessa cidade é meu”, e desatamos a correr para o pé do gigante Tó’Candar (correr é tudo aquilo que não se consegue fazer em Torres Vedras durante o Carnaval tal o mar de gente em tudo quanto é rua)…mas na nossa potente imaginação aquela velocidade era de ponta!!! Já estão centenas atrás da última grande invenção do Carnaval de Torres, que vai percorrer o Carnavalódromo durante 2 horas, até cair a noite e não restar um folião na rua! Os ritmos aqui ainda são mais quentes e mesmo com as ligeiras pingas que estão a cair ninguém arreda pé, todos sabem as letras e estão em êxtase!

Estão em êxtase todos aqueles que dormiram de sábado para domingo, porque nós, bem nós para dizer a verdade já não chegámos à hora do Tó’Candar…eram quatro da tarde e fomos dormir…porque às 22h00 começa a melhor noite do Carnaval de Torres, a noite de domingo…e sobre essa noite…vão-me perdoar…mas eu nada vou contar!!!

Porque a vida são 2 dias…e o Carnaval de Torres são 6…p’ra mais!

PS – este texto é fictício…se conseguiste ler até aqui vais perceber como está a ser um Carnaval difícil…porque ainda não começou!!!

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