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Sexta feira 07:30…toca o despertador pela primeira vez nos próximos 5 dias…

Não há miúdos para levar para a escola, mas o acontecimento para o qual os tenho de preparar exige alerta e concentração máximos, boa disposição e umas marchinhas brasileiras a acompanhar. O Corso escolar é o primeiro grande acontecimento na cidade que vive e respira Carnaval como nenhuma outra sequer imagina…8.000 crianças vão desfilar no carnavalódromo mais alegre do Mundo…uma cabeleira, algumas pinturas, o fato feito à medida, algumas serpentinas e uns confetis, e já se ouve um “pai…estamos atrasados…”…pudera o Carnaval não espera por nós…

Depois de uma manhã de correria para “sacar” a melhor foto, ainda “alucinado” pela parafernália de cores de milhares de máscaras, pondero abancar para almoçar com meia dúzia de foliões ainda a “babar” pelo espírito já demonstrado pelos seus fiéis descendentes…o “sangue do Carnaval” corre-nos nas veias, borbulha de paixão, ferve a cada acontecimento vivido neste Carnaval, e bate recordes bombeado pelo coração de um verdadeiro folião!

Qualquer que seja a escolha para a primeira refeição neste período há sempre mais mascarados que “comuns mortais”, mais algazarra que conversas em surdina, mais espírito de camaradagem que sorrisos amarelos…afinal, Ele está aí, já começou…vamos vivê-lo!

Regra geral, a tarde gasta-se a procurar o último adereço, nas lojas mais tradicionais da cidade, que nesta altura vendem ao mesmo preço do chinês…

Antes do jantar (não sei como não consegui encaixar isto no texto até agora) lá vamos em romaria ao Cup da Caravela (já lá fomos uma meia dúzia de vezes hoje), pois é necessário ganhar endurance para o que aí vem…os Reis vão chegar e ainda temos de mascarar, jantar, preparar a coreografia do levantamento do copo em uníssono, e o tempo voa…o que vale é que o comboio atrasa sempre…

Vinte e duas e picos, sete e coisa, nove e tal, aí estão eles!!! Os Reis na estação…(chegam sempre num comboio de última geração hiper mega silencioso, e ultra rápido – estou para lhe ver a cor aos anos e nada…enfim, o mais importante, estão cá os Homens!!!)

Depois de uma valente ovação com uns calduços à mistura lá sobem para a charrete real, e sente-se desde logo no ar o frenesim de uma cidade que está ansiosa por vê-los a governar até quarta feira, sempre de uma forma magistral, sem direito a oposição ou contraditório, porque simplesmente são Reis, e os Reis têm muito poder…podem fechar ruas, andar em sentido inverso ao trânsito, cobrar bilhetes, por música na rua até de manhã, trazer os cavalos para a cidade e permitir que os homens se vistam de matrafona (uma mulher que parece um homem, pois, porque um homem que parece uma mulher é outra coisa)…e a malta permite-lhes tudo e ainda lhes paga umas imperiais…deve ser porque ao fim de 5 dias voltam a ir embora…quer dizer…a Rainha vai embora, o Rei é morto…

Voltinha apeada pela cidade (só os Reis é que têm transporte pago pela Câmara – é o único momento de promiscuidade entre república e monarquia neste Carnaval), toca a fanfarra, desfilam os confrades, seguidos pela corte com fidalgos, ministros e matrafonas, cachuchas e lúmbias além de toda a plebe que já só vai cantarolando “olhá cabeleira do zézé”…seguem-se os discursos inflamados de quem reclama o poder, e as promessas vãs de quem está pronto para entregar a chave…dantes o presidente ia a banhos e de descapotável, o atual como ainda é o segundo carnaval vai certamente acompanhar a folia bem de perto!

Entronizados, meio entornados, de sorriso estampado no rosto, com ar de quem manda nisto tudo até quarta de cinzas, lá seguem os Reis a sua volta apeada agraciados pelo povo e ovacionados como se trouxessem a liga dos campeões para Torres Vedras…a noite ainda é uma criança, uma criança que não se vai deitar antes do meio dia…prometo chegar mais cedo a casa juro eu entre dois dedos cruzados atrás das costas…afinal esta é a primeira noite do resto da minha vida!

É quase meia noite e tenho à minha frente uma cidade que se chama Carnaval…de copo de plástico na mão com uma loura danada para brincar comigo a noite toda enfiada lá dentro, começo a percorrer as calçadas à antiga portuguesa e as liós que preenchem a zona histórica transformada em mega palco carnavaleiro onde só há uma regra…entrar em todos eles para saber se há mais louras a querer brincar…quando não se encontra a loura canta-se o refrão do “mamã mamã mamã eu quero…” o resto da letra vocês já sabem, ensaia-se um “pézinho de dança” e diz-se vou ali e já venho…o que há mais nestes dias em Torres são louras danadas para brincar enfiadas dentro de um copo de plástico…

Prometi que ia cedo para casa, e como há que ganhar créditos para o que aí vem (engraçado como estas expressões são tão verdadeiras nestes dias), vou só ali espreitar a Batata e os Jardins. São aos milhares e aparecem de todo o lado, todos mascarados, extravasando toda a adrenalina acumulada ao longo dos últimos 11 meses, e que já anda a ser testada desde meados de janeiro…saltam, dançam, sorriem, e eu entro neste ritmo desenfreado armado em “Fred Astaire de Ipanema” que domina as pistas de dança…dois para a frente um para trás e dois para o lado, sempre com um olho na loura não vá ela saltar e fugir do copo de plástico…bem…a noite vai longa…vou para casa, até já!

PS – este texto é fictício, não fui logo para casa…ainda era cedo!

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