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“Não foi nada que já não estivesses à espera: duro e difícil.” Paulo Almeida sabia, de antemão, que este desafio era diferente dos anteriores. O torreense já havia rumado a Badajoz, à Serra da Estrela e à Senhora da Graça. Desta vez o objectivo era o de unir o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, percorrendo 1020 quilómetros entre a cidade espanhola de Valência e o Oeste português. “A chegada a Santa Cruz foi uma sensação do outro mundo. Foi fantástico.” No final de 45 horas de viagem – 36 a pedalar -, o ciclista chegava à Praia Formosa com uma autêntica maré de gente à sua espera. Amigos e curiosos juntaram-se à família e ao treinador, Hélder Miranda, para o momento que marcou o final do desafio.

O certo é que, como explica, “o momento de conquista começou muito antes de ter parado ali.” Mas já lá vamos, porque o caminho foi longo até à recta final e contou com inúmeras adversidades. “A primeira noite foi muito fria, o que acabou por dificultar mais”, com as temperaturas a descerem até aos dois graus negativos. A solução passava por pedalar envergando camisola térmica, dois casacos de Inverno, impermeável, dois pares de luvas, calças de Inverno e pernitos. “A segunda noite já correu melhor, não estava tanto frio e era mais seco. Já chegou aos oito graus. Depois a dificuldade das horas em cima da bicicleta… De carro vemos os quilómetros a passar. Na bicicleta demora muito mais” diz, entre risos.

“Já tinha tido um pequeno sinal de um joelho na semana antes. Desvalorizei, não queria abortar o desafio por causa disso.” O cair da noite em estradas espanholas havia de trazer o problema de volta. “Acabei por pedalar sempre com dor até Santa Cruz, mas não havia volta a dar, não ia desiludir quem tanto me apoiou.” E se as condições climatéricas não ajudaram, Paulo admite também “um bocadinho de amadorismo. É aquilo que sou, sou amador e não profissional.” O ciclista aponta a preparação do trajecto como um dos pontos fracos deste desafio. “Não preparei com o melhor cuidado e acabei por ter algumas surpresas no percurso.” Troços em terra batida, caminhos com pedras e até um pequeno furo foram alguns dos obstáculos que surgiram na já difícil prova a que se tinha proposto. Mas a lição a tirar não podia ser outra. “O que nos leva a melhorar é o que vamos aprendendo. Os erros que cometemos já não cometemos nas seguintes. E se tivesse sido só alcatrão bom também não tinha tanta piada.”

Paulo Almeida pedalou 1020 km. "A chegada a Santa Cruz foi uma sensação do outro mundo"
Paulo Almeida atravessou a fronteira ao quilómetro 774.

Desafio ao corpo… E à mente

Paulo Almeida cumpriu o desafio de atravessar a Península Ibérica cumprindo uma média de 29 quilómetros por hora. “O objectivo do desafio era non-stop, fazendo o mínimo de tempo possível.” Por isso, as paragens cingiam-se a, no máximo, 20 minutos. “Tentava fazer uma refeição um bocadinho maior nas horas das refeições normais, pequeno-almoço, almoço e jantar.” E se “o corpo respondeu bem” a esta ultra-maratona sob rodas, a verdade é que “estava bastante desgastado psicologicamente” na chegada à fronteira. “Depois de quase 30 horas a pedalar, ao frio e sozinho, tive uma surpresa enorme.” Os Chorões, grupo com quem costuma pedalar, juntaram-se ao ciclista quando se preparava para subir o Marvão e acompanharam-no durante os restantes 270 quilómetros. “Pensei que estava a ter visões. Foi um momento muito emocionante.”

Uma surpresa que trouxe ânimo e pareceu tornar a viagem que faltava em algo muito mais rápido. “Se temos alguém a pedalar connosco, acaba por ser mais aconchegante.” Mas Paulo não deixa esquecer o papel de Nuno Elias e Bruno Rodrigues, amigos que seguiam no carro de apoio que o acompanhou neste desafio em que as condições físicas e psicológicas são postas à prova. “A dificuldade, a noite, o frio, a solidão… É um desgaste emocional. Se não estivermos bem preparados, o passo entre apear da bicicleta e entrar para o carro é muito pequeno.” Algo que parece ter estado sempre bem longe do horizonte deste homem que gosta de se desafiar. “Desistir é uma coisa que nunca se coloca nos meus desafios. Só se cair para o lado!” A Westbike, a Euphoric Challenges, a + WHATT, a Pizzaria Dose, o Licor 35 e a Cofides prestaram o apoio de que necessitava, uma vez que, como lembra, “a minha forma de estar no desporto e no ciclismo é puramente de lazer e amadora.”

Ao aproximar-se do concelho de Torres Vedras, foi aumentando o número de amigos e amantes do ciclismo que quiseram pedalar os últimos quilómetros. Um pelotão de cerca de 50 bicicletas havia de fazer a chegada a Torres, num final de percurso efusivo que contou com o entusiasmo dos torreenses.”Quero agradecer o carinho e o apoio de toda a gente sem excepção” sublinha o ciclista. Daniela Reis, campeã nacional de estrada e de contra-relógio, foi uma entre as centenas de pessoas que acompanharam o torreense nesta verdadeira “odisseia”. Quanto à sequela… Resta esperar pelos dias maiores e as temperaturas mais agradáveis da Primavera. “Em Abril ainda não há condições para fazer aquilo que já tenho em mente… Uma coisa ao estilo do que fiz agora. Mas penso que em Junho haverá novidades.”

 

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