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São crianças e jovens que partilham o amor pelo palco e pelas artes. Em comum têm ainda o facto de terem passado pelas salas da Estufa – Plataforma Cultural, associação torriense que tem as suas instalações no espaço da antiga Moagem Clemente (ao lado do novo espaço da Biblioteca Municipal). O Torres Vedras Web esteve à conversa com Rafaela, Júlia e Joana, três jovens torrienses que prometem “voar” e dar cartas no universo artístico.

“Sempre fui daquelas raparigas que, na escola primária, dizia que queria ser actriz ou cantora. As pessoas podiam achar que era uma criancice, mas eu sempre senti aquela coisa quando via televisão, uma revista à portuguesa, filmes…” Rafaela Vasa chegou à Estufa através de amigas, e não esconde a paixão pelo mundo da representação. “Fiquei por cá estes anos todos a experienciar o teatro. Quando experimentei as Oficinas de Teatro, senti-me bem. Acho que me apaixonei.”

Com apenas 17 anos, Rafaela transpira energia quando se fala no mundo dos palcos. “Adoro fazer teatro”, repete vezes sem conta, sem esconder que gostava de experimentar outras áreas da representação, como cinema ou novelas. Mas o “bichinho” parece ser outro… “Sempre tive curiosidade em experimentar revista à portuguesa, porque acho que é uma coisa muito nossa.” Por isso mesmo, quando começamos a falar em referências, não hesita em referir o nome de uma artista portuguesa. “Gosto muito da Maria Rueff. Tem um espírito que eu adoro.”

E se a Estufa privilegia o teatro contemporâneo, não deixou de dedicar o espectáculo deste ano a esta aluna da casa. “Isto Não é Uma Revista” – com formato de revista mas conteúdos distintos deste género – subiu ao palco do Teatro Cine de Torres Vedras para delícia de Rafaela Vasa. Tal como ela, os alunos das oficinas de Expressão Artística foram os intérpretes, trataram da cenografia e da dramaturgia da peça.

Rafaela, Júlia e Joana: a história de três torrienses que levam as artes mais longe
“Estou muito entusiasmada e super feliz” diz Rafaela Vasa, que vai integrar a London Metropolitan University. Foto: Rita Alves dos Santos

A jovem de Santa Cruz prepara-se agora para uma nova etapa. Em Setembro parte para Inglaterra, onde irá integrar o curso de Representação e Performance na London Metropolitan University. “Estou muito entusiasmada e super feliz” diz, sem esconder a expectativa. “Estou ansiosa para ver como é. Vamos à luta.” A candidatura foi feita em Março, enquanto vivia com os avós. Para tratar de todo o processo de candidatura, Rafaela não esquece o apoio da Estufa e do Externato de Penafirme, onde concluiu o ensino secundário. E destaca, claro, o apoio da família e dos amigos. “A minha mãe é sempre o meu apoio, e mesmo estando mais longe, sempre me apoiou.”

Deitar contas ao ballet desde cedo

Júlia Santos tem 10 anos, mas foi aos três que começou a dançar. E o que ao início parecia ser mais uma brincadeira, rapidamente se assumia como um grande amor. “A primeira coisa que a Júlia faz quando está em casa é calçar as sapatilhas de ballet e vestir o maillot” conta a mãe, Darry Diogo. “Aos seis anos decidimos ir para Lisboa. Fiz os primeiros quatro anos, que são Cursos Livres do Conservatório Nacional de Dança, que toda a gente pode fazer.” Os cursos de que Júlia nos fala destinam-se a crianças dos seis aos 10 anos – o que corresponde ao ensino primário -, não integrando o Conservatório. À semelhança de Rafaela, seguiram-se as aulas na Estufa.

“Depois fui experimentando as outras aulas de contemporânea, e em Junho deste ano fiz as audições para o Conservatório e entrei.” Quem ouve o que conta quase esquece a dificuldade de tal proeza. O processo de candidatura à Escola de Dança do Conservatório Nacional passa por três dias seguidos de audições: estatura, flexibilidade e postura são passadas a pente fino, além dos aspectos técnicos que incluem barra, plies e uma apresentação de dança livre. A verdade é que Júlia foi admitida. “Ficou doida de contente” conta a mãe. Mas morar em Torres Vedras com as aulas em Lisboa a começarem às 8h15 tornava a tarefa quase impossível, o que levou a família a optar pela continuidade de Júlia na escola torriense.

“Para nós, Estufa, é um orgulho que um aluno voe. Infelizmente isso não é prática corrente, há muitos sítios que tentam esconder informações aos alunos” lembra Magda Matias, coordenadora da Associação, que reconhece o crescimento e desenvolvimento da Escola de Dança Movimento durante os últimos anos. “Há dois anos a Júlia iria ficar aqui? Não.” E deixa o alerta. “É obrigação de qualquer serviço educativo, de qualquer professor do secundário, reconhecer estes cliques nestes miúdos que às vezes são diferentes, tentar perceber o que há em cada cidade e encaminhá-los.”

Rafaela, Júlia e Joana: a história de três torrienses que levam as artes mais longe
Aos 10 anos, Júlia Santos foi admitida nas audições para a Escola de Dança do Conservatório Nacional. Foto: Rita Alves dos Santos

E se, para já, o caminho continua a passar por aqui, a pequena Júlia lembra que tem uma outra paixão… A matemática. Resta esperar para ver qual o resultado da soma entre estes dois amores.

“Acreditar” é a chave

Tal como a Júlia e a Rafaela, também Joana Domingos olha para a sua infância e reconhece que o gosto pelas artes já vem de longe. “Quando vejo fotografias minhas em criança estou sempre em posições de dança, às vezes até muito parecidas com as do ballet” conta a jovem de 18 anos de Vale de Janelas. “Muitas vezes lembro-me de estar em casa com seis, sete, oito anos, a fazer coreografias que depois pedia à minha mãe que fosse ver. Acho que começou aí.” Hoje, está no segundo ano da Escola Superior de Dança.

“Meti na cabeça que queria seguir dança, e aconteceu.” Foi por volta dos 15 anos que decidiu o caminho a seguir no ensino superior e foi aí que decidiu pôr mãos (e pernas) à obra. “Tive quatro anos de ballet, um ano aqui na Estufa em contemporâneo e fiz as provas de admissão com a ajuda do Professor Valdemir. Foi com muito esforço e dedicação dele que consegui entrar” conta. Para que conseguisse chegar ao que se tinha proposto, Joana chegava mais cedo à escola de dança e saía de lá muito depois do fim da aula. “Houve muita gente que duvidou… Acho que ninguém acreditava. Eu sabia que era muito difícil, mas acreditei.”

Agora, o balanço não podia ser mais positivo. “A experiência está a ser óptima, é completamente diferente. Num ano sou capaz de ter evoluído o mesmo que evoluí em quatro anos. É aprender mais coisas novas dentro deste mundo.” E desengane-se quem pense que só de dança “pura e dura” se faz esta formação. A manhã é reservada para as aulas de técnica – que variam entre o contemporâneo e o ballet -, a que se segue a vertente teórica ou uma componente prática de coreografia ou análise de vocabulário. Não esquecendo as disciplinas de composição e interpretação que dão origem aos espectáculos que apresentam na escola…

Rafaela, Júlia e Joana: a história de três torrienses que levam as artes mais longe
“Houve muita gente que duvidou… Acho que ninguém acreditava. Eu sabia que era muito difícil, mas acreditei” conta Joana Domingos. Foto: Rita Alves dos Santos

Dividida entre a via do ensino e a do palco, Joana Domingos acaba por reconhecer o recente desejo de dar aulas aos mais pequenos. “Um professor não se faz sendo só professor, e um bailarino não se faz sendo só bailarino.” O Mestrado em Ensino da Dança e uma experiência no estrangeiro estão no horizonte desta jovem, que destaca a importância dos pais no apoio moral aos mais jovens que pensam dedicar a vida ao mundo artístico. “Hei-de ser um bocadinho de tudo e tentar ser o melhor possível.”

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