publicidade

“Torres Vedras 100% eucaliptal – é isso que queremos?”

Artigo de Rui Matoso, Candidato à Câmara Municipal pelo Bloco de Esquerda | Torres Vedras / Professor do ensino universitário e politécnico

Um eucaliptal não é uma floresta, é uma monocultura nociva para a biodiversidade e para os territórios.

Após o lamentável incêndio de Pedrógão Grande e das suas fatais consequências na perda de vidas, o debate em torno da reforma da floresta portuguesa, da prevenção e do combate aos incêndios, ocupou intensamente a esfera pública, ao mesmo tempo que o governo estava a preparar a nova “Reforma da Floresta”. Foi entretanto votado, no dia 18 de Julho, o novo “Regime Jurídico das Ações de Arborização e Rearborização”, para o qual o Bloco de Esquerda conseguiu impor a redução do eucalipto.

A espécie que em Portugal, e especialmente em Torres Vedras, teve o maior incremento absoluto foi o eucalipto. A ascensão do eucalipto à categoria de espécie dominante na floresta nacional ficou confirmada no Inventário Florestal Nacional (IFN) de 2010. Desde há algumas décadas que a nossa área florestal é ocupada por “floresta de produção”,  leia-se “eucaliptal”.  Ou seja, andamos a designar como “floresta” aquilo que na realidade é uma monocultura de uma espécie invasora.

As corporações ligadas à produção da celulose formam hoje um forte sistema de lobby, com múltiplas operações de propaganda ambiental com o intuito de criar uma ilusão de sustentabilidade “verde” junto da opinião pública. O resultado ao longo de décadas de influência junto dos governos do centro (PSD, CDS e PS) ficam expressos no desmantelamento dos serviços florestais e na liberalização da plantação de eucaliptos.

A defesa de interesses económicos associados à industria da celulose vem sendo promovida politicamente em Torres Vedras, por exemplo no encontro “O Papel do Eucalipto na Floresta e Economia Nacional”[1], realizado em 2011, no qual o actual presidente da Câmara, Carlos Bernardes, apoiou a ideia de “floresta” (eucaliptal) como uma alavanca para a economia portuguesa. Por outras palavras, isto quer dizer que o município de Torres Vedras pode ser transformado totalmente num eucaliptal ao serviço da indústria da celulose.  É neste contexto que se criam as Zonas de Intervenção Florestal – ZIF Torres Vedras Oeste e ZIF Torres Vedras

[1]    http://www.anefa.pt/notcias/2016/4/4/fileira-do-eucalipto-em-debate

Este, cujo objetivo declarado pelas associações florestais é o de aumentar mais a produção de eucalipto.

No concelho de Torres Vedras, o eucaliptal ocupa actualmente cerca de 85% da área florestal, o pinheiro bravo ocupa 10%. Isto significa que 95% do arvoredo é composto por material lenhoso altamente combustível. Comparativamente, podemos verificar que, segundo dados oficiais da distribuição das espécies florestais do concelho de Torres Vedras, existiam (existem?) 13 sobreiros para 7593 eucaliptos (ver quadro, original sem data).

Distribuição das espécies florestais no Concelho de Torres Vedras
Distribuição das espécies florestais no Concelho de Torres Vedras

Tendo em consideração que o “Plano Regional de Ordenamento do Território do Oeste e Vale do Tejo”, refere que a ocorrência regular nos últimos anos de incêndios acontece essencialmente nas áreas florestadas com pinhal e eucalipto, representando assim um elevado risco de incêndio, podemos concluir que o concelho de Torres Vedras é uma autêntica “bomba incendiária” no actual contexto climatérico com temperaturas mais elevadas.: «A existência de povoamentos contínuos de espécies altamente inflamáveis como o eucalipto e, geradoras de grande número de projeções que atingem grandes alcances, são motivo de preocupações e indicam a necessidade da tomada de medidas preventivas» (Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios (PMDFCI) 2015-2019).

Mais nefasto ainda se verificarmos que, por exemplo no Sarge, temos habitações junto às plantações de eucaliptal, representando um elevado fator de risco. Este cenário vem sendo cada vez mais agravado pelo efeito do aquecimento global (alterações climáticas), com dias de calor extremo que facilmente deflagram incêndios.

mapapovoamentosflorestaistorresvedras

Torres Vedras é desde, pelo menos, 1972, o maior produtor de eucaliptos e o maior fornecedor das industrias da celulose da Região Oeste. Houve portanto uma clara opção da produção da monocultura de eucalipto no concelho em detrimento do valor ecológico da floresta, da natureza e da biodiversidade. O domínio desta industria é tão omnipresente que até para se saber o regime de propriedade dos solos se usa a informação cedida pela CELPA (associação da indústria papeleira).

Apesar de todas as evidências de uma gestão do território contrária aos princípios da biodiversidade florestal, provocada pela monocultura do eucalipto, com efeitos negativos na destruição dos ecossistemas, na erosão dos solos, na desertificação do território, no consumo excessivo de água ou no aumento do risco de incêndios, a Câmara Municipal – sob gestão do Partido Socialista – tornou-se especialista em “greenwashing”, vendendo o município com o selo ambiental “Green Leaf” ao mesmo tempo que convive bem com esta invasão do eucaliptal. Neste capítulo não deixa de ser contraditório que a Área de Paisagem Protegida das Serras do Socorro e Archeira, seja constituída maioritariamente por uma espécie invasora, sendo até considerada pela indústria como expoente máximo da produção de pasta de papel.

Seria de esperar, no entanto, até porque sabemos interpretar a história, que tivéssemos aprendido alguma coisa com as invasões napoleónicas e com as políticas de terra queimada destruidoras do território e das populações de Torres Vedras.. A pergunta que se impõe é então: Porque razão há-de Torres Vedras ser um concelho invadido pelo eucalipto e dominado pela indústria da celulose?

Perante este grave problema ambiental, a nova reforma da floresta e a municipalização em curso prevê que as câmaras municipais tenham maior participação no ordenamento, na gestão e intervenção de âmbito florestal. Deste modo, o Bloco de Esquerda propõe desde já, entre outras, as seguintes medidas de política ambiental:

  • Proteger e valorizar a natureza e a biodiversidade, tendo como prioridade promover a mata das Termas dos Cucos como Área de Paisagem Protegida e a recuperação ambiental da “Pedreira dos Cucos”;
  • Promover a educação para a floresta e natureza;
  • Realizar o cadastro dos terrenos do concelho (Cadastro Rústico);
  • Fazer cadastro fitossanitário e efectuar a recuperação de árvores danificadas no concelho;
  • Não autorizar novas plantações de eucalipto e de outras espécies invasoras;
  • Arborizar com espécies autóctones;
  • Identificar terrenos baldios e criar um banco público de terras para projetos de permacultura, agricultura biológica e agrofloresta;
  • No seguimento da aprovação da nova Lei dos Baldios, dinamizar sessões de esclarecimento regulares em todas as Juntas de Freguesia, para promover a criação de assembleias de compartes em todo o território nacional, com o intuito de desenvolver o sentido de envolvimento comunitário no processo de reflorestação;
  • Proibir o cultivo com espécies transgénicas.

 

publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here