António Esteves escreve hoje sobre as “traições” no PSD

Um artigo para a RTP

A eleição para a liderança da bancada parlamentar do PSD é uma boa metáfora de um certo “ser português”. O despeito dos que saem e que tentam minar o caminho dos que entram, mesmo que tenham sido escolhidos/eleitos de forma limpa e democrática, com recurso a todos os mecanismos legais e legítimos ao dispor. Uma certa forma de ser português em que o currículo não serve para coisa nenhuma, nem parar gerar respeito institucional, porque o que o que interessa é pertencer a um grupo, uma tribo, um lóbi, para tentar manter tudo como está com aparências de mudanças profundas.

Os despeitados tentam condicionar os que entram sempre com recurso a duas caras, a que sorri pela frente e a que apunhala pelas costas. Foi o que aconteceu na votação, quando pelo menos dois elementos da direcção/coordenação da bancada votaram contra eles próprios – parece que são mais, porque houve pessoas que, apelando ao seu sentido ético e de responsabilidade, estando contra votaram a favor mesmo sem nenhum cargo atribuído. Sem coragem para assumir a divergência aceitaram a indicação mas tentaram a golpada pelas costas. Se a intentona corresse mal poderiam sempre seguir em frente como se nada fosse, continuando a sorrir para o líder como se de um apoiante convertido se tratasse.

São as típicas traições à portuguesa, palacianas e condenáveis, que não são obviamente exclusivo do PSD entre os partidos, nem exclusivos da política na sociedade, existem nas empresas e até nas famílias. São um mal transversal que nos faz mal enquanto país e nos divide enquanto Nação.

Daqui a um ano, quando elaborar as listas para as legislativas, Rui Rio – que adora estes braços de ferro e tem também muitas culpas neste início desastrado da liderança no PSD – vai obviamente proceder a uma limpeza das listas dos deputados, afastando os que foram fiéis ao “passismo” para construir uma alternativa constituída por fiéis escudeiros que estejam disponíveis para defendê-lo até à morte no campo de batalha. Não teria de ser assim, porque as purgas são das coisas mais ignóbeis e mais contraproducentes, mas terá de ser por força das circunstâncias e por uma questão de sobrevivência política do próprio líder do PSD. Nessa altura não vão faltar os indignados que vão rasgar as vestes em público, não vão faltar os gritos lancinantes dos que vão acusar Rio de afastar os descontentes e de fazer uma purga reclamando o direito à oposição e ao protesto, não vão faltar os que vão acusar Rio de asfixia e défice democrático dentro do próprio PSD, mas Rio cá estará para lembrar este triste episódio com Fernando Negrão – que também tem culpas próprias no desenrolar deste processo – provavelmente já com nomes em carteira para denunciar os autores/actores da golpada.

Todas as lideranças, novas ou reconduzidas, têm direito ao seu estado de graça, a constituir equipas novas ou renovadas, a definir novas estratégias ou alinhar as antigas para novos rumos, a liderarem com paz e sossego até ao momento em que se poderá de facto avaliar se há ou não resultados concretos que correspondam às promessas. O contrário são apenas traições à portuguesa, de gente despeitada e que tenta a todo o custo manter o “status quo” com receio de perder lugares e influência. Mas as instituições e o seu interesse geral devem sempre sobrepor-se aos interesses e desejos pessoais e individuais.

“Roma não paga aos traidores”, a frase é antiga e quer dizer apenas que “Quem com ferros mata com ferros morre”. Ou seja, a estratégia de quem atraiçoa até pode resultar em determinado momento, mas os traidores são, por definição, tudo e o seu contrário, dissimulados e cobardes, e essas pessoas estão condenadas à solidão no futuro. Um destino que poderá ser breve, dependendo apenas da capacidade de resistência do líder.

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