Vigília pela cultura junta profissionais e público nas Caldas da Rainha
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Do teatro às artes plásticas ou ao público, cerca de 45 pessoas participam hoje, nas Caldas da Rainha, numa vigília silenciosa visando alertar para a precariedade dos profissionais da cultura privados de rendimentos devido á pandemia da covid-19.

“O estado de calamidade veio por a nu todas as chagas do setor já de si precário”, afirmou Tânia Leonardo, promotora da vigília iniciada às 09:00 nas Caldas da Rainha, para “dar visibilidade à situação que afeta mais de metade dos profissionais da cultura, sem apoios, sem rendimentos e a viver da solidariedade”.

A mensagem é passada “em silêncio”, por agentes culturais que em grupos de três fazem turnos de meia hora, empunhando um cartaz com uma questão: “E se tivéssemos ficado sem cultura?”.

“Que seria das pessoas se tivessem de cumprir o confinamento sem livros, sem música, sem os conteúdos que tantos agentes culturais disponibilizaram ‘online’?”, questiona Tânia Leonardo, lembrando que a pandemia deixou “completamente desprotegidos estes profissionais que precisam de respostas urgentes, mas também de verdadeiras políticas culturais de médio e longo prazo”.

Coordenado por Tânia Leonardo, o Teatro da Pessoa, um projeto criado em 2018, é um dos exemplos de como a pandemia deixou sem rendimentos oito profissionais que asseguram aulas de representação a 60 alunos, nas Caldas da Rainha e em Lisboa.

Sem poder dar aulas e impedida de levar à cena o espetáculo programado para 11 de março, o grupo, que não tem qualquer apoio da Direção-Geral das Artes, a associação que habitualmente “divide entre todas o que se ganha”, ficou agora sem nada para dividir e muitas “preocupações” para partilhar.

Silvia Abreu, líder da associação humanitária “Tocar na Alma”, viu canceladas todas as ações de sensibilização que tinha marcado nas escolas onde desenvolve um trabalho de consciencialização para a violência doméstica e no namoro através das artes.

Com quatro crianças em casa, vale-lhe o facto de o marido, palhaço no projeto “Nariz Vermelho”, continuar a ter trabalho e assegurar o rendimento da família.

Ainda assim, faz questão de participar na vigília “por solidariedade”, mas sobretudo para “lutar pelo reconhecimento das artes como veículo para a mudança social” e um “alimento para a alma sem o qual as pessoas se deprimem e adoecem”.

A solidariedade para com os profissionais motiva também Nuno Bettencourt, formado em artes plásticas e professor na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha.

Apesar de manter o rendimento de professor, o artista plástico viu paralisado pela pandemia o atelier de serigrafia onde, num sistema de associativismo, cerca de meia centena de artistas desenvolvem trabalho.

“Não há materiais, não se produzem trabalhos e não são feitas exposições”, o que deixa sem fundos a oficina por onde passam muitos artistas ”sem trabalho e que precisam de ser salvaguardados, ter contratos de trabalho e poderem recorrer ao fundo de desemprego nestas situações”.

Walter Morais, professor de dança, vai dando aulas ‘online’ e mantém o contrato com o estúdio que lhe paga o ordenado.

No entanto, a consciência de que “podia estar no lugar de qualquer uma destas pessoas” leva-o a marcar presença no protesto silencioso a que nem o público quis faltar.

Luísa Jorge, emigrante em Inglaterra, atualmente em ‘lay-off’, levanta alto o cartaz que representa “o público que não quer ver desaparecer a cultura em Portugal” e por isso reclama “mais segurança” para os artistas de todas as áreas.

O mesmo reclama Tânia Leonardo, para os artistas “para os produtores, técnicos, cenógrafos e todos os profissionais” que fazem parte da “engrenagem” que faz chegar as artes aos seus públicos.

Até porque, depois da pergunta “e se tivéssemos ficado sem cultura?” o setor questiona-se agora como será “se ficarmos sem cultura?”, com a falta de políticas a ditar “a morte” de muitos projetos sem qualquer apoio.

Além das Caldas da Rainha, realizam-se hoje vigílias semelhantes em Lisboa, Funchal, Faro, Setúbal, Almada, Porto, Aveiro, Évora, Vila do Conde, Coimbra e Santa Maria da Feira.

Entre as reivindicações dos profissionais da cultura contam-se a criação do estatuto do artista e a aprovação de um fundo de emergência para os que na cultura e nas artes, ficaram sem rendimentos e sem apoios devido à paralisação provocada pelo combate à pandemia.

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