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“Vila Vedra” – um livro “de passagem, de memórias, de viagem, de transição” – é apresentado amanhã, em pleno Feriado Municipal, no âmbito das Festas da Cidade. Um livro que se assume como uma obra abrangente, que procura ter “um tom descritivo mas poético” e que passa em revista “a história do quotidiano, com algumas incidências históricas.” Nem o Castro do Zambujal ou o Tholos do Barro, monumentos arqueológicos que marcam a identidade do concelho, escapam à caneta do poeta, que fala num “casamento entre a carga emocional e a história”. “É uma poesia erudita a que as pessoas aderem com facilidade” resume o autor, que não tem dúvidas. “É uma obra com que os torreenses se vão identificar.”

Foi em 1979 que a vila de Torres Vedras foi elevada a cidade. Um momento que marca a história colectiva torreense, e que agora é homenageado em “Vila Vedra”. A obra apresenta 79 poemas assinados por Luís Filipe Rodrigues, professor que está na cidade “há muitos anos” e que ainda se lembra de ver a Rua Teresa de Jesus Pereira ser alcatroada. “Quis fazer um hino a Torres Vedras. E este livro procura celebrar a passagem de vila a cidade” explica, em conversa com o Torres Vedras Web. Um livro de poemas acompanhados pelas fotografias de Daniel Abreu, repleto de referências históricas e que se inspira em cenas concretas do quotidiano dos torreenses. “É uma viagem à memória dos sítios” afirma o autor, para explicar como a obra se divide em três vectores, sempre com títulos bem presentes na memória colectiva.

“A primeira parte procura rememorar ruas, largos, sítios e monumentos. É muito centrada sobre o centro histórico.” Um percurso que se faz pela Corredoura, pelo Largo da Graça, pela Rua 9 de Abril, pela Praça. “Há uma segunda parte em que procuro celebrar, lembrar, rememorar pessoas.” Surgem-nos as figuras do Menino Tóino, do Chico da Bola ou do Padre Sousa. “E depois há uma terceira parte em que me volto para o concelho”, com versos que se centram em localidades como o Turcifal, a Serra da Vila, o Carvalhal ou o Outeiro da Cabeça. “A elevação de vila a cidade foi feita em Fevereiro de 1979, por isso são 79 poemas” explica Luís Filipe Rodrigues. “Para que o leitor naturalmente desatento se aperceba, o penúltimo chama-se Penúltimo 78“, um poema de versos alexandrinos e que funciona – à semelhança do último – como um epílogo. “É um livro que balança entre o passado e o presente.”

"Vila Vedra" de Luís Filipe Rodrigues. "É uma obra com que os torreenses se vão identificar"

O Chico da Bola no Largo de S. Pedro

Debruçado no muro das laranjeiras

a dor entra-lhe no peito lentamente

e passa

ao ver passar a tarde

à sua frente.

A solidão é o que sobra de uma vida.

 

Se eu pudesse fazer tudo de novo

desatava estas mãos cansadas, juro

voava

 

ai se pudesse lavar o rosto

em água nenhuma, juro

lavava

 

pregava o Chico da Bola ao vento.

Luís Filipe Rodrigues, Professor de Filosofia, olha para a história da cidade onde começou a leccionar em 1973. “As transformações muitas vezes dão-se aos saltos. Quando estou a subir uma escada, parece gradual, mas há um degrau.” Uma metáfora que nos remete, de imediato, para o tema que orienta esta obra. “O dia em que a vila se elevou a cidade foi um golpe, um salto. Depois é preciso geri-lo e assumi-lo.” Transformações que considera terem uma “influência directa no desenvolvimento” da região e cujos efeitos se sentiram, sobretudo, a nível da imagem. “Torres Vedras era o epicentro, há volta não havia cidades nenhumas. Nesta região, foi a primeira grande cidade.”

Foi em 2011 que o autor recebeu o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho com a obra “Lugares de Passagem”, sobre as Linhas de Torres. Foi então que desafiou Daniel Abreu para o projecto que havia de unir poesia e fotografia. “Na dedicatória que lhe fiz, lancei o repto se ele queria fazer fotografias para o livro. E ele aceitou.” O livro, encadernado e em papel couché, conta com 20 fotografias que passam em revista a matéria-prima da região que inspirou o poeta. “As fotografias são belíssimas.” Enumerar as de que mais gosta revela-se um exercício quase automático. “A fotografia do Aqueduto é lindíssima. Mas talvez ainda mais linda seja a fotografia em que aparece o Convento da Graça… É de uma originalidade excepcional.” O Sizandro e a Várzea são outros pontos que não escaparam à lente do fotógrafo. “É o olhar do artista. Vale a pena adquirir o livro só por causa da fotografia.”

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